ESPAÇO UEMA: TESTEMUNHO DE UM PERSONAGEM

Iran de Jesus Rodrigues dos Passos

Iran de Jesus Rodrigues dos Passos

Levando em conta a minha formação humanístico-social, professor de Língua Portuguesa e suas respectivas literaturas, e jornalista, vou tecer estas considerações acerca das críticas a que recorrentemente tem sido submetida a Universidade Estadual do Maranhão (Uema) com uma digressão sobre o tempo. Este, na perspectiva de quem nos ensina muito sobre ele, o Santo Doutor Agostinho, são três: presente das coisas passadas, presente das coisas presente e presente das coisas futuras. Estes três tempos existem na mente do homem e não se vê em outra parte a lembrança das coisas passadas, a visão presente das coisas presentes e a espera das coisas futuras. No livro do Eclesiastes, como se observará na citação abaixo, tem-se a confi rmação das palavras de Santo Doutor Agostinho:

Tudo tem seu tempo determinado, e
há tempo para todo o propósito debaixo
dos céus:/ há tempo de nascer e tempo
de morrer, tempo de plantar e tempo de
arrancar o que se plantou,/ tempo de
matar e tempo de curar, tempo de derribar
e tempo de edifi car,/ tempo de chorar
e tempo de rir, tempo de prantear e tempo
de saltar de alegria, / tempo de espalhar
pedras e tempo de juntar pedras,
tempo de abraçar tempo de afastar-se
de abraçar,/ tempo de buscar e tempo
de perder, tempo de guardar e tempo de
deitar fora,/ tempo de rasgar e tempo de
coser, tempo de estar calado e tempo de
falar,/ tempo de amar e tempo de aborrecer,
tempo de guerra e tempo de paz.
(Eclesiastes 3:1-8).

Na perspectiva do livro do Eclesiastes, aqui, e do Santo Doutor Agostinho, acolá, depreende-se que o tempo é, fundamentalmente, objeto de refl exão. Esta, entendida como um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo, para conhecer-se a si mesmo, para indagar-se
como é possível o próprio pensamento.
No contexto do tempo, como objeto de refl exão, no mês de setembro, fui surpreendido pela leitura, na mídia maranhense, da repercussão,
levada a cabo por alguns parlamentares, de forma espetacular, da posição ocupada pela Uema no ranking das instituições de ensino superior,
feito pelo jornal Folha de São Paulo. Fiquei surpreso, é verdade. Mesmo sabendo que a instituição estadual de ensino superior é a representação de um ente federativo pobre, o Maranhão, localizado em uma região pobre, o Nordeste. No entanto, refeito do impacto, impacto
esse que também afetou centenas de colegas, professores da instituição Uema, submeti-me a um processo de refl exão, aquela a que conduz a
concepção de tempo por parte do Santo Doutor Agostinho. Veio à minha memória o ano de 1993, momento em que, através de seletivo, seguido de concurso, ingressei na Uema, juntamente com professores do “quilate” de Camila Nascimento, Creusimar Costa, Dinaci Correa, Fabíola Santana, Francisco Marreiros, Haroldo Bandeira, Jorge Borges, Lorie Leite, Maria Auxiliadora Gonçalves, Sebastiana Fernandes, Teresa Cristina Azevedo, Toyoko Suenaga, Vanda Rocha, aos quais se somaram Andrea Lobato, Luzinete, Maialu Moreira, Sílvia Furtado e Venúzia Bello.
Ao chegar à Uema, vinha do Jornalismo, trabalhando em emissoras de rádio e televisão, e em jornais, em São Luís e Imperatriz com uma
pequena experiência no Ensino Médio e no Ensino Fundamental. O magistério superior apresentava-se, então, a mim, como um fato novo como nova era e ainda é a Uema, criada que foi em 1981. Embora criada em 1981, a Uema, como Universidade, só começa em 1993 quando foram criados os cursos de Licenciatura. Méritos de Luciano Moreira, João Vicente Abreu, César Pires e Waldir Maranhão. Até, então, a Universidade Estadual do Maranhão só possuía os cursos de Bacharelado, poucos, na verdade, mas com professores “gigantes”, na Agronomia, na Engenharia, na Administração e na Veterinária. Estes cursos, qualquer leigo em matéria de ensino superior sabe, não constituem um universo, uma Universidade, que é a soma deles mais as licenciaturas, mais a extensão, mais a pesquisa. Nesse intervalo de tempo, entre 1993 e os dias de hoje, como personagem e, portanto, como testemunha, acompanhei o processo de
formação, em nível superior, por meio da Uema, de milhares de professores, seja aqui, em São Luís, seja no continente, através dos programas
Procad e PQD substituídos, hoje, pelo Darcy Ribeiro. Viveu-se, a partir de 1993, uma verdadeira epopeia. Professores que, o mais das vezes, sequer tinham tido contacto com uma universidade, com esses programas adquiriram um certificado de formação superior, nas diversas áreas de conhecimento. Lembro-me do preconceito de que foram vítimas os alunos desses programas. Muitos dos impregnados deste sentimento, duvidavam dos programas, alegando que eles eram desenvolvidos no período de férias nas escolas. Se não fora este fato, qualquer outro valia para desqualificar a ação da Uema. Tal atitude trazia à tona a fábula de La Fontaine, O Lobo e o Cordeiro, onde a razão do mais forte, no caso dos críticos, é sempre a melhor quando deveria prevalecer a consciência de Vítor Hugo para quem a razão do melhor é sempre a mais forte.
O tempo, ele, novamente, acabou, como diz Hegel, contrariando a dialética da História. Graças aos programas de interiorização da educação
superior, levados a cabo pela Uema, no Maranhão, a fi gura do professor só com o ensino médio está em extinção. Como corolário, melhorou
substancialmente a educação maranhense. É fato que ela não chegou ao “paraíso”. Em educação, qualquer que seja o lugar, não se trabalha
com curto prazo. Mas, inegavelmente, a educação maranhense saiu do “inferno”, resultado do esforço indigente de centenas de profissionais da Uema atuando, seja nos cursos de Bacharelado, seja nos cursos de Licenciatura. Quando cheguei à Uema, acreditei, como muitos colegas ingressantes, que, profissionalmente, tinha chegado ao “paraíso”. No entanto, logo vi que tinha que descer ao “inferno”. Vi que o salário de professor universitário era menor do que o de um professor secundarista. Vi, também, que à Universidade Estadual do Maranhão não bastava a minha graduação. Tive, então, que fazer um curso de especialização. Mal a conclui, vi, ainda, que à Uema não bastava a minha especialização. Novo curso, o de Mestrado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que, necessário dizer, presta mais serviços ao Maranhão do que muitos institutos maranhenses. Foram, junto com mais 20 colegas da Uema, mais de três anos de curso, tendo de conciliar
estudo, trabalho e família, fazendo “das tripas, coração” para que esta última não fosse sacrifi cada, esforço no qual contei com a prestimosa
colaboração de Maria José Freitas, com quem estou casado há exatos 30 anos, sendo produtos dessa união a advogada trabalhista Maíra
Passos Brito e o bancário Argemiro Passos Neto. Concluído, com louvor, o mestrado na UFRJ, achei que era hora de “dar um tempo”.
Ledo engano. O professor Mivaldo Álvares de Oliveira, decano do curso de Administração, achou que eu deveria ser candidato à presidência
da Associação dos Professores da Universidade Estadual do Maranhão, a Apruema, de tantos defeitos, de tantas virtudes, de tantas conquistas, seja na luta pela qualifi cação dos docentes, seja na melhoria salarial deles, binômio de ensino de qualidade.
Achei um absurdo. Já tinha participado da Diretoria da entidade, mas sem disputa. Recusei. Fui, no entanto, vencido pela insistência
de Mivaldo. Candidato, achava que só disputaria a eleição. Difícil acreditar na possibilidade de vencer o prestigiado professor Anselmo Raposo. Aconteceu, então, como disse, em parágrafo anterior, o que Hegel chama de contradições dialéticas da História. Na presidência da Apruema, coube a mim a representação dos professores no Conselho Universitário da Uema. Sempre sob a presidência do reitor José Augusto Oliveira. Divergências à parte, presenciei o denodo dele no sentido de qualifi car os quadros docentes da instituição. Achava ele que a superação se daria pela qualificação. Como resultado, hoje, a Uema tem 265 professores-doutores e 323 professores-mestres. Esses números aumentarão, substancialmente, em 2014. Para uma instituição estadual situada em uma região de extrema pobreza é algo a comemorar.
Nessa empreitada, tem sido importante a parceria, seja com o Governo Federal, seja com as mais importantes universidades brasileiras,
como a UFRJ, a UNESP e UNICAMP. Difícil, então, acreditar nos indicadores que colocam a Uema como uma das piores universidades
brasileiras. A reforçar essa descrença o excelente desempenho da Universidade Estadual do Maranhão no Exame Nacional de Desempenho
de Estudantes, o Enade-2012. Nele, a Uema está presente com três cursos, o de Direito de São Luís, o de Direito de Bacabal, e o de Administração de São Luís, enquadrados na faixa 5, que é a mais alta do exame. Esses cursos, é necessária a ênfase, ministrados pela Uema, com a nota obtida, passam a ser de excelência. Por fi m, tem-se que “O tempo é o senhor da razão”, conforme o escritor francês Marcel
Proust. Entendo que os que repercutiram os indicadores do RUF da Folha de São Paulo estão, agora, no mínimo, obrigados a repercutir, também, a avaliação da Uema no Enade-2012. Com a mídia dando o mesmo destaque dado à posição da Universidade Estadual do Maranhão, no RUF, no mês de setembro.
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¹ O título do artigo, publicado originalmente no Jornal Pequeno, foi construído, data vênia, a partir do título do opúsculo Espaço São
Luís: testemunho de Haroldo Tavares, que constitui a transcrição do discurso por ele pronunciado quando da homenagem que lhe prestou a
Associação Comercial do Maranhão. Já o artigo presta-se, também, a uma homenagem aos professores da Uema, com ênfase ao professor
Expedito Barroso, diretor do Centro de Educação Superior de Imperatriz, que validou a minha pretensão em redigi-lo.
² Jornalista, Professor na Universidade Estadual do Maranhão (Uema).; doutorando em Ciência da Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); diretor da Editora Uema; ex-presidente da Associação dos Professores da Universidade Estadual do Maranhão (APRUEMA).

 

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